top of page

Qual vida vocĂȘ quer viver? - A Biblioteca da Meia-Noite e o desafio da escolha profissional

  • Foto do escritor: Camila Polese
    Camila Polese
  • 11 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura

A Biblioteca da Meia-Noite e o desafio da escolha profissional



No inĂ­cio da leitura do livro A Biblioteca da Meia-Noite, me recordei de um antigo texto meu da adolescĂȘncia, em que expressei a minha angĂșstia diante dos muitos caminhos possĂ­veis da vida. Lembro da analogia que fiz com uma sorveteria, no qual queria ter a chance de experimentar todos os sabores, mas tinha que me contentar com a escolha de apenas um.


A Biblioteca da Meia-Noite tem o mĂ©rito de abordar de forma leve e acessĂ­vel esse grande dilema da vida que me assombrava desde muito nova. O dilema diante das inĂșmeras vidas possĂ­veis, que geralmente surge com uma pergunta: “Quem eu poderia ter sido?”, pergunta que acompanha inĂșmeras simulaçÔes, das mais sĂ©rias Ă s mais banais: O que aconteceria se eu nĂŁo tivesse ido aquele lugar? Ou aceitado aquele convite? Se eu tivesse entrado na rua Ă  esquerda, e nĂŁo Ă  direita, quem eu seria? É tambĂ©m esse o drama do antigo filme “Efeito Borboleta”, que marcou a minha geração no inĂ­cio dos anos 2000.


NĂŁo por acaso fui transportada para essas lembranças da minha adolescĂȘncia. É nesse perĂ­odo que Ă© colocado diante de si a missĂŁo de uma grande decisĂŁo, que parece definir todo o rumo da vida. A pergunta essencial: “O que eu poderia ter sido?” aparece da mesma forma, mas projetada ao futuro: “Quem eu posso ser?”, pergunta que segue acompanhada das inĂșmeras simulaçÔes: Se eu escolher o caminho A e nĂŁo o B, como vai ser? Vou ser feliz ou vou me arrepender?


Na Orientação Profissional, tal qual Sra. Elm da Biblioteca, oferecemos uma boa dose de diålogos, com reflexÔes e perguntas. A oportunidade de imaginar como seriam os caminhos, alinhados também à pesquisas profundas, que devem levar a sério o que a realidade apresenta. Com esses diålogos, imaginaçÔes e investigaçÔes, chegamos juntos a um tipo de escolha.


É uma tarefa multidisciplinar, que envolve aspectos teĂłricos e tĂ©cnicos de diversos tipos. Mas me chama atenção o aspecto profundamente filosĂłfico que a tarefa do Orientador implica e que passa muitas vezes despercebido. Nossa tarefa nĂŁo Ă© apenas identificar habilidades, traçar perfis profissionais, averiguar notas de vestibulares. Nossa tarefa Ă© essencialmente ajudar alguĂ©m a escolher um caminho. E escolher um caminho envolve todos os anseios profundos que surgem diante do mistĂ©rio da vida e da nossa total falta de controle do futuro. É nesse momento que muitos jovens (e adultos) paralisam. Diante de tantas opçÔes, qual Ă© a escolha certa?


Sra. Elm adverte: “Nunca subestime a importĂąncia das pequenas coisas”. A tendĂȘncia Ă© atribuirmos um grande peso a decisĂŁo de uma profissĂŁo, como se ela determinasse todo o rumo de uma vida. Esquecemos o Ăłbvio: qualquer caminho se faz de muitas escolhas. NĂŁo Ă© possĂ­vel descobrir a priori qual escolha serĂĄ mais determinante. É um exercĂ­cio que se faz a posteriori, quando analisamos o rumo que a vida jĂĄ tomou, e com esforço e sem nenhuma exatidĂŁo, criamos uma narrativa tentando identificar quais escolhas determinaram nossa vida. Claro, pode ter sido nossa escolha profissional, como tambĂ©m pode ser algo pequeno que nos escapa, como um nĂŁo dito, um cafĂ© ou uma virada de esquina.


Para lidar com esse difĂ­cil desafio, talvez o mais importante seja aprender logo no inĂ­cio da jornada, o que o livro claramente entrega: nĂŁo existe um caminho certo. Na verdade nĂŁo existe UM, e tampouco o CERTO. É preciso encarar essa realidade universal, de que sempre haverĂŁo perdas e ganhos, felicidades e infelicidades, erros e acertos, em qualquer tipo de vida - e em qualquer tipo de profissĂŁo. Diante das infinitas possibilidades, Ă© preciso correr o risco de escolher. Esse ato de coragem, requer que a gente se implique com nossa prĂłpria existĂȘncia e se responsabilize em alguma medida, com desejo e intenção. Nos esforçando para ter a vida que queremos, com as condiçÔes da vida que temos.


A chave estĂĄ aĂ­, na mesma missĂŁo de Nora Seed: identificar a vida que queremos viver. Quando ela retorna Ă  vida, menciona que o que encontrou na jornada foi esperança e potencial. Nora percebe, ao viver inĂșmeras vidas, nĂŁo sĂł tudo o que poderia ter sido, mas que existe em si a potĂȘncia de ser muitas coisas. O livro termina sem sabermos o futuro de Nora Seed. Assim como na vida - a nossa prĂłpria e a das pessoas que acompanhamos em uma Orientação Profissional - nĂŁo podemos prever o futuro. É um livro em branco a ser escrito. Mas assim como na histĂłria de Nora, sabemos a direção que ela deseja seguir, e isso jĂĄ Ă© muita coisa.


Talvez um bom trabalho de Orientação Profissional - e me permito aqui uma licença poĂ©tica - seja aquele que ilumina uma direção, amplia as potencialidades e permite a esperança. Direção, porque Ă© preciso ter um norte para caminhar. Potencialidade no sentido de reconhecer que hĂĄ em si a potĂȘncia de desenvolver e ser algo. E esperança no sentido literal da palavra: esperar algo, o que inclui fundamentalmente a fantasia e o desejo, elementos fundamentais para um bom trabalho de Orientação Profissional, e por que nĂŁo dizer, para a vida.






bottom of page